Me foi contado por Francisco Cardoso. (meu pai)
Joaquim, além de trabalhar de sol a sol, ganhava algum dinheiro tocando em bailes, em festas. Pegava a sua sanfona e a carregava noite afora, se oferecendo para tocar onde aceitassem. Além do sustento Joaquim tinha apreço pelo ato.
Certo dia Joaquim estava sem dinheiro e saiu de casa dizendo "Hoje eu vou tocar, nem que seja no inferno". Sua mãe, ao ouvir a declaração do filho, disse em resposta: "Que Deus te acompanhe, meu filho".
Joaquim andou por toda a noite, mas a cidade estava deserta, não havia festa, baile, nada. Sentou-se à beira da estrada e viu se aproximar um homem montado em um cavalo. O homem disse a Joaquim que precisaria de alguém para tocar em sua festa e Joaquim combinou o preço pelo trabalho.
Quando chegou à casa vazia do homem, o mesmo lhe pediu para que começasse a tocar. Quando Joaquim começou, ouvia o barulho de pessoas dançando, pés arrastando no chão, tilintar de copos, risadas e todo o tipo de barulho, mas a casa estava vazia! Mesmo assustado, Joaquim continuou a tocar, fingindo estar tudo bem. Em certa hora, o homem pediu que fizesse uma pausa e o convidou a jantar. Ao chegar à sala, deparou-se com uma mesa cheia de pés, orelhas, mãos, línguas, olhos e dedos. Ficou aterrorizado e disse que não estava com fome. Então o homem disse para continuar com o baile.
Joaquim voltou a tocar e o mesmo barulho de uma multidão dentro de uma casa vazia estava presente.
Com o raiar do dia, o homem pediu que parasse de tocar e começou a lhe pagar pelo serviço com estranhas notas de 7, 13, 18, 32 e 41 reais.
Tão estranha era a situação que Joaquim lembrou-se do que falara e perguntou ao homem se ele estava no inferno. O homem respondeu que sim e lhe disse que ele só não ia ficar ali porque sua mão cometera a besteira de falar "Que Deus lhe acompanhe".
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